domingo, 12 de dezembro de 2010

A briga pela cadeira de R$ 450 milhões

Após 2 meses de disputa, a Câmara de SP escolhe na quarta o presidente que definirá os rumos da política paulistana no próximo ano

Diego Zanchetta O Estado de São Paulo

Poucas quadras separam o restaurante Gigetto do Hotel Jaraguá, dois tradicionais endereços do centro paulistano. São em suas mesas discretas, em meio a tenros pedaços de cordeiro e vinhos da Sicília, que a sucessão municipal de 2012 e o futuro político de uma dezena de partidos são traçados pelos dois grupos que disputam no dia 15 o comando da Câmara Municipal, uma instituição de 450 anos e R$ 450 milhões de orçamento anual.

Os chefes rivais na briga - o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o vereador Antônio Carlos Rodrigues (PR) - jogam a sobrevivência de seus projetos políticos na eleição. O primeiro planeja surgir como uma terceira força na política estadual, em contraponto à polarização entre o PT e o PSDB. Para fundar essa terceira via, Kassab precisa vencer o "centrão", o bloco de vereadores liderado por Rodrigues, que comanda o Legislativo desde 2005.

No Gigetto, o nome do candidato José Police Neto (PSDB) faz parte do cardápio desde maio, assim como o capelete à romanesca pedido pela maioria de seus apoiadores. É ele o candidato de Kassab. No Jaraguá, o prato da candidatura Milton Leite (DEM) só começou a ser servido em outubro, entre garfadas de fettuccine ao molho de cordeiro. Esse é o homem do "centrão" e de seus aliados do PT.

No meio dessa disputa, teve vereador que já provou o capelete de Kassab e o cordeiro do "centrão", mas segue indeciso. Tamanha dúvida a três dias da eleição tem explicação. Se o prefeito obtiver o controle da Mesa Diretora do Legislativo, com a vitória de Police Neto, ele consolida o seu plano de agregar os partidos que querem deixar de ser satélites de governos tucanos e petistas para desempenhar algum protagonismo.

E Kassab tem o que oferecer: o PMDB paulista está à sua espera com plano já traçado para disputar com o prefeito o governo do Estado em 2014. Com carta branca para aprovar seus projetos nos últimos dois anos de governo, o prefeito amplia as chances de fazer um sucessor. Seu cacife como nova liderança da política nacional também aumenta, com a possibilidade de ser seguido em São Paulo por partidos como PPS, PSB, PC do B e PV.

Para os sonhos do prefeito se tornarem reais, dizem seus adversários, ele decidiu oferecer cargos, secretarias e um futuro promissor aos aliados ao mesmo tempo em que acena com a miséria para quem desafiá-lo. Seus apoiadores reclamaram do grupo de Carlinhos - como Rodrigues é conhecido. Dizem que o "centrão", sob a escolta do campeão olímpico de judô e vereador Aurélio Miguel (PR), ameaça bater em seus adversários. A ameaça da abertura de CPIs incômodas ao governo e seus aliados seria outro de seus argumentos para a conquista de votos.

Ataques. A articulação do prefeito acirrou os ânimos. Paira sobre o Palácio Anchieta - o prédio de 15 andares no centro que abriga a Câmara - ameaça de agressões, chantagens e traições. Tudo temperado por ironias e um pouco de humor negro. Na volta dos almoços no Gigetto, parlamentares que mudaram para o lado do prefeito evitam a calçada do Viaduto Jacareí usada pelos antigos parceiros do "centrão".

Rodrigues, o fundador e líder do grupo, quer tratar os vereadores traidores de sua chapa a ferro e fogo. Quem primeiro sentiu as consequências da vontade de Carlinhos foram os integrantes da bancada evangélica. O bispo da Renascer Marcelo Aguiar (PSC) foi o primeiro. Ele organizou um jantar a favor de Police Neto dois dias depois de assumir compromisso com o "centrão". A retaliação veio no mesmo dia. No meio de uma paella, o bispo e os 24 parlamentares que estavam em seu novo apartamento no Ipiranga, na zona sul, receberam a indigesta visita de Aurélio Miguel e de Adilson Amadeu (PTB), outro expoente do "centrão". Aguiar levou um soco no meio do peito e foi chamado de traidor. Depois da agressão, o bispo recuou: fez as pazes com Amadeu e agora deve votar em Leite para presidente.

Evangelho. Também indefinido, o missionário da Igreja Mundial José Olimpio (PP), que chegou a assinar um documento em maio em apoio ao "centrão", foi interpelado no subsolo do Legislativo pelos colegas: queriam saber se ele havia mudado de lado. Olimpio teria sido pego pelo colarinho da camisa por Carlinhos. O missionário evita falar na confusão e diz não ter definido seu voto.

No plenário, Aurélio Miguel usa o Evangelho para advertir Olimpio e Aguiar. "Só quero lembrar a esses moços evangélicos alguns capítulos da Bíblia que eles tanto pregam." O líder do PPS, Cláudio Fonseca, responde que as ameaças do "centrão" só mostram que a Câmara precisa mudar. Mudar, talvez, para permanecer tudo como está.

PARA LEMBRAR

Centrão iniciou projeto de poder em 2005

Nos últimos dois meses de 2004, qualquer conversa na Câmara passava pela eleição da Mesa Diretora de 2005. Mas foi só em 30 de dezembro, antevéspera da posse de José Serra (PSDB) como prefeito e da eleição do presidente da Casa, que um líder do "centrão" deu a pista, descrita assim pelo Estado em 1.º de janeiro: "Vereadores em tese fechados com o governo chegaram a se oferecer ao grupo para dar o voto decisivo, desde que fossem escolhidos como candidatos". Horas depois de o jornal chegar às ruas, o vereador Celso Jatene (PTB) anunciava a existência oficial do "centrão" e lançava como candidato do bloco o então tucano Roberto Tripoli contra Ricardo Montoro, apoiado por Serra. Por 28 a 26, Tripoli foi eleito - e o "centrão" deu início a seu projeto de poder na Câmara.

Do Estadão.com.br

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